segunda-feira, 1 de março de 2010

Couraça

Eu a amolei várias vezes,
peguei-lhe com carinho,
e sem machucar, cortei seu pelo nos dias de verão,
sei que isso não lhe agradava,
mas nas noites frescas você queria me agradecer,
e eu adorava ter novas mantas com seu pelo.

Cuidei do seu couro,
e como cuidei,
sabia que ele era valioso,
e por isso eu nunca lhe fiz um corte sequer,
muito menos deixei que lhe ferissem
ou que lhe deixassem sem alimento.
Seu couro era o mais perfeito,
mais bem cuidado e macio,
com certeza seria uma ótima vestimenta.

Mas hoje acordei ouvindo vozes:
Enforquem-no,
arranquem-no os olhos,
puxem a corda sem dó;
e então abri os olhos sentindo uma pedrada na face,
era tudo muito escuro,
via minusculas frestas de luz que passavam pelo saco de tecido preto que cobria minha cabeça.

Ensacado,
tentei me movimentar e percebi que meus braços estavam imóveis,
e eu estava em pé sobre um chão oco,
senti a vibração das vozes nos meus pés descalços
e o seu cheiro muito familiar no pano de saco.

Puxaram a corda,
eu me lembrei de você,
o chão se abriu,
eu senti seu cheiro,
o saco que me cegava caiu,
e eu vi seu couro macio
na manta que me imobilizava o tronco.

Tudo foi escurecendo,
os presentes gritavam
e eu, com ódio, ouvia os gemidos da dor que você nunca sentiu
"doce ovelha cruel"
e sentia o aperto do couro que eu mesmo tratei.

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