quarta-feira, 28 de abril de 2010

Claro

Eu estava sentado sobre meu sofá,
listrado e aconchegante,
e você veio,
tirou de mim o conforto do quarto semi escuro,
as telas eram belas daquela forma,
você chegou com a marreta
e quebrou a parede que eu mais gostava,
a destruiu,
derrubou tudo sobre meu piso,
e me fez ver que existia uma janela atrás daquela parede.

Eu estou aqui, admirando a janela
quero lentamente conseguir chegar até ela,
descobrir tudo o que há além,
pois até então eu só vejo a luz,
e o reflexo dos vultos...

Agora,
Eis que você chegou de novo,
te escuto bater,
e mesmo sem eu atender,
você usa sua voz:
"Oi, já é hora de sentir"
e desde então eu tenho uma porta!

Papel

Já tive a cor dos olhos,
seus, mas minha cor.

Já tive o gosto do perfume,
o cheiro da vontade,
a fragância do vento que passou.

A flor que murchou sem querer,
o vaso que quebrou sem eu ver,
a terra que formou desenhos,
e o barro que virou alguém!

Quero água pra limpar,
mas perder o que sujou é perder alguém que se amou
é viver sem a cor do olho que tem cheiro de verdade
e que traz a cura da saudade...

Ai se conhecesses meu inimigo íntimo.
Dirias a ele para se tornar o mocinho,
pois este papel esta vazio.

Já cancei de puxar as cortinas,
mas não consigo pensar quem o farias,
caso tomasse eu o papel do meu íntimo,
e deixasse de ser meu próprio inimigo
que me trai com a saudade
de um cheiro de verdade
de alguém que é incerta
de uma cor que não existe.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Almoço

Pratos posicionados,
talheres com lados trocados,
guardanapos dobrados,
copos a beira prato.

Pronto, a mesa esta posta,
tragam agora aquele corpo,
estendam-no sobre a mesa
e então compartilharemos de suas desgraças.

Prefiro o tiro de ontem a noite,
ou o golpe mortal do ônibus sobre um ser,
talvez até um acidente causado por drogas.

Os comentários são os melhores:
"Ó meu Deus, que dó!"
"Bem feito, merecia morrer de novo"
"Quem mandou mexer com isso??"
"Mais que merecida a prisão dele"

Enquanto isso,
mastigo minha alface,
saboreando o azedo do limão que poderia ter manchado aquele braço
que levou o tiro,
que foi filmado,
junto com o morto,
que era amigo do preso,
que também foi filmado
e que passou na TV
que mudou o sabor do meu almoço,
que até então, tinha gosto de comida.

domingo, 25 de abril de 2010

Àmostra

Tentei compartilhar,
mas tive medo de me mostrar.
Mostrar no sentido aberto, no sentido exposto, no sentido de gosto.

Não queria te deixar assim,
muito menos te ver por fim,
penso que não quero,
mas sei que no fundo desejo.

Falta me seu olho,
por amor,
não me deixe mais exposto.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um do cotidiano

Saí do quarto para te ligar,

Você atendeu com sua voz única e eu perguntei quem era,
A resposta era óbvia e a que eu gostaria de ouvir,
Então perguntei como você estava,
Você afirmou estar bem, e me perguntou como eu estava,
Respondi que estava bem,
Mas estava com saudade, sentindo falta da sua companhia,
Da sua voz, do seu abraço,
E então você fez um silêncio por alguns segundos,
Sua respiração ofegou,
E então você respondeu,
Que bom você ter falado isso, eu também estou sentindo sua falta,
Queria te falar isso, mas estava com medo da sua impressão sobre mim,
Lhe disse que não, que ficarei sempre muito feliz em te atender e te ouvir,
Você me contou que esta tendo alguns problemas,
Eu ouvi, caladamente, fiz algumas perguntas sobre o assunto
Você respondeu sobre seus problemas
E disse que seria legal se nos encontrássemos para ficarmos conversando,
Eu concordei, levei alguns pães,
Tomamos um café,
Rimos a tarde toda, e eu voltei embora...


Cheguei à sala,
peguei o telefone
e agora posso discar o número da sua casa para alguém atender...

Lanterna dos afogados

Vamos barco, me leve pra onde a luz alcança
Eu não sei de onde ela partiu, mas sei que pegou
e daquele jeito que leva flutuando pra longe,
quase caí na água, mas ainda sinto falta do ar que refresca.

Gostei do mirante, mas ainda quero água,
de cima é tudo escuro, só vejo onde minha luz alcança.

Alguém mirou pra mim, não vejo o ponto, só o clarão,
arde o olho, quero ar,
a água ta gelada, mesmo com a luz tentando me aquecer.

Quero blusa, mas na água ela não serve,
quero sunga, mas no ar eu sinto frio,
quero luz, mas meus olhos ardem,
quero você, mas não sei bem...

O vento bate o sino,
a bandeira agita,
a luz apaga,
o vento cessa,
o frio diminui,
o calor some,
a água seca,
o vento molha,
a pele coça...

"Quando ta escuro e ninguém te ouve,
quando chega a noite e você pode chorar,
ha uma luz no túnel dos desesperados,
ha um cais de porto pra quem precisa chegar,
eu to na lanterna dos afogados,
eu to te esperando, vê se não vai demorar.

É uma noite longa, de uma vida curta,
mas ja não importa, basta poder te ajudar,
são tantas marcas, que ja fazem parte,
do que eu sou agora,
mas ainda sei me virar
eu to na lanterna dos afogados,
eu to te esperando..."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Justiça

Vesti minha capa e fui encontrá-los,
passei pelos becos, vales, estrelas, nuvens,
perfurei a lua
e cheguei junto a vocês.

Me encontrei com a força da justiça,
a lealdade da vida,
a amizade do real e irreal.

Fomos chamados pela Vida para uma missão
e eu estufei o peito, agitei minha capa escura,
mostrei meu símbolo,
amarrei minha calça,
e saí voando em busca do ego indefeso.

Vocês me acompanharam, sem nenhum comentário,
e então nos deparamos com um beco,
fundo, escuro, cercado por dois prédios abandonados,
com as janelas interditadas a madeiras.
As paredes estavam pichadas de histórias metafóricas,
e vocês estavam olhando para mim,
lá do alto do prédio,
e me disseram:
"Nós estamos aqui, não acontecerá nada"

Me irritei por não terem decido ali,
e quando eu gritava, vocês respondiam com convicção:
"Esta missão é sua"

Em minha frente havia o contorno de uma pessoa,
coberto com um pano preto e imóvel.

Com cautela, retirei o pano
pensando no poder que usaria,
e quando baixou o pó,
me vi refletido no espelho.

Meus olhos, boca, cabelo...
Capa no chão,
máscara desfeita,
e o indefeso.

Acabou a armação,
agora sou eu e eu,
sem poderes,
sem armas sem dilhas...

Apenas eu...

Quando achei ter visto a criptonita,
vocês se aproximaram,
mas não aterrisaram.

Eu somente abaixei
admirei
e peguei uma pedra
mesmo sabendo quem era o vilão.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Medo

Já era hora de saber o que eu penso de você,
sinto frio ao lembrar dos seus olhos, suas mãos, seus sopros, seus sussurros.
Sinto pena de mim por fugir tanto assim de algo que parece não ter fim.

Primeiro o escuro, depois a solidão,
agora as aranhas.
O que fazer então, quando se tem a impressão de que tudo vai te cercar com aquilo que te faz agir em vão?

Escondo minhas mãos e pés,
travesseiro e coberta, o que seria de minhas noites sem vocês?

Vêm perguntas, palavras, musicas, sons, imagens... tudo que possibilita a cena.
Muito frio, vento forte, uma grande teia, o escuro, um grande escuro, e a solidão!

Venha aranha, hoje eu tirei na sorte a sua presença,
decidi escolher dois a um, e ganhei no jogo.
Minhas pedras são invisíveis, e meus olhos passam pela escuridão,
escuto seus passos frios e sinto a tensão,
mas não vou correr,
vou descobrir meus pés e mãos, vou te esperar acordado,
pra te dizer as verdades do medo que sinto,
e te esmagar com a fidedignidade do meu temor.

sábado, 3 de abril de 2010

Errar

Não pense meu melhor,
saiba que eu também posso errar
e que, além de tudo, eu posso acertar.
Saiba que a vida não é só feita de troféus,
e que é com pedras que se contrói uma casa.
Ninguém mora no buraco, mas ninguém pode sobreviver sem um!
Oco ou não,
você sempre carrega algo que não te permite ser,
mas nada impede que você não sinta querer,
não sinta viver.