segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Porre Pote

É difícil ouvir da boca de alguém que você espera a resposta da sua vida, uma meia verdade. É como abrir o baú do tesouro e descobrir que nele só existe uma moeda e que ainda nem é muito valiosa.
Acho que não queria ter descoberto esse "tesouro", acho que queria ficar com a chave, apenas a chave, para sempre...
Mas uma hora ela ia ter que encontrar a sua casa e encaixar-se lá, afinal, é para isso que chaves servem.
Mas o que se faz quando não se quer mais o tesouro que está lá dentro? Joga-se a chave pela janela do carro enquanto viaja?

Sempre acreditei na historia do pote de ouro no fim do arco-íris, e mesmo hoje sabendo que é mentira, nunca deixo de lembrar dele quando o arco-íris aparece!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Questões

Perguntas simples,
respostas claras.
Quão fácil queria que fosse as respostas
das perguntas que eu nem sei fazer.

Queria respostas curtas,
perguntas tolas,
bobas aparentemente.

Nada de complexo ou tenso,
queria só palavras curtas,
infladas com meu ar,
sem a dor do meu estar.

Simples dor
canto horror,
cócegas
fraldas
confetes

Quero te perguntar o porque de não estar
quero te responder o porque do não saber
queria entender o porque de não ser,
mas minha verdade salta a vóz da pergunta muda
e responde as fronteiras da dor absurda.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sintomático

Conte-me aquilo que pensa,
Não escolha a hora, nem o local,
apenas conte-me.

Abra sua caixa, e mostre-me as fotos do passado,
as imagens que te guardam sem papel
sem tamanho nem margem,
fale sobre os acontecimentos, dos momentos das lembranças,
das dores e sentimentos
das vestes e das flores.

Lembre-se que com o passar do tempo
tudo começa a manchar.

Então, conte-me antes que manche,
deixe-me saber das verdades que te escondem das manchas
e dos falsos remédios que te escondem da vida.

Conte-me sobre teus segredos nefastos,
melancólicos, ilegais,
Sobre os "podres"
os "santos"
os "irreais".

Invente-me histórias trocadas,
parábolas cantadas
ou até mesmo frases irregulares.

Mas conte-me,
conte-me tudo aquilo que te esconde.

Pois só me falta saber pela tua boca,
tudo aquilo que teu corpo já me contou.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Um breve conto mágico

Uma rua,
uma meia luz,
uma brisa.

Brilham luzes sobre nós,
os recipientes translúcidos deixam transparecer o líquido espumante,
ele borbulha e espuma,
querendo produzir a mágica da visão.

As companhias são as melhores,
o clima vai mudando,
fresco, vento, céu iluminado,
uma conversa boa
e de repente,
uma primeira vez.

Um ato de mágica se transforma em brilho,
cortando o céu e iluminando meus olhos.

Uma voz amiga:
Você viu?
Pela primeira vez pude responder: Eu vi!

Santeiro

Maldita seja,
sagrada crueldade,
antes que venha tarde,
a pregada igualdade da desigualdade.

Cantem, cantem bem alto e graciosamente,
imitem os tambores que anunciam a derrota da vida.

Fechem os portões,
os sujos pedem abrigo.
Suas feridas jorram palavras,
que como fel
corroem seus falsos âmagos.

Ó povo regularizado
que fala sobre as grades,
engulam seus santos votos afiados,
afinem seus coros de ceiar discórdia,
antes que cedo venha o riso que te agrada a dor.

Sintam compaixão própria,
vocês não precisam disso,
seu azeite já derramou há tempos,
e agora,
é hora de plantar no oliveiral.

Plantem outras coisas santas,
que não sejam perfuradas,
nem enforcadas,
mas que firam claramente.

A hemorragia interna leva à morte,
e escolher curar-se da morte
já é um arbítrio digno.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

As flores

Com minhas mãos eu a peguei,
ela era linda,
uma flor perfumada, de cor inigualável.
Não tive dúvida,
coloquei-a no bolso e continuei a caminhar,
eu estava em uma estrada,
longa, eu acreditava,
e finalizada no horizonte.

Observei no meu caminho várias flores iguais a que eu possuia
e no fim, lá longe,
eu via certos pontos de cores diferentes,
talvez fossem flores novas.
Com medo,
sentei-me na estrada,
inspirei o cheiro agradável daquelas flores que estavam ao meu redor,
até que,
bêbado,
resolvi andar e caminhar mais um pouco...

O sol ardia,
eu estava meio desidratado,
mas continuei a andar olhando para as pedras do caminho,
únicas.

De repente, notei-me cercado por um certo tom diferente,
parecia algo irreal,
e então observei que as flores que antes estavam longe,
agora me cercavam com sua graça.

Coloquei a mão no bolso e encontrei aquela antiga flor,
agora murcha, feia e mal cheirosa,
e resolvi jogá-la ali,
no chão,
entre as belas,
para poder apoderar-me de uma nova,
perfumada e colorida únicamente.

A peguei carinhosamente e coloquei no meu bolso,
resolvi não cheirá-la tanto para não "gastar" a beleza,
e continuei andando.

Bem breve, me senti com o coração apertado
e resolvi voltar para pegar a flor que eu havia jogado fora,
pois afinal, ela havia caminhado comigo por algum tempo,
Mas quando olhei para trás,
notei que as pedras do caminho iam se desfazendo conforme minha passagem,
até que este então deixava de existir.

Apavorei-me e começei a correr,
As flores começaram a mudar de cor,
agressivamente,
muitas cores começaram a inundar o redor do caminho pela frente,
e então
deparei-me com a pior coisa da minha vida:
Uma bifurcação.

Olhei para trás,
o caminho que se desfazia parou encostado nos meus calcanhares
Respirei fundo e percebei que
algumas flores eram iguais as que eu ja tinha visto,
e as que ficavam entre a bifurcação,
eram diferentes,
muito diferentes.

Olhei para a história que estava deixando de existir fisicamente
Percebi meu coração saltitando,
inspirei novamente os perfumes exalados
Olhei para o sol no intervalo dos caminhos
e sai correndo entre as flores diferentes.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mesa

Garçon,
Me traz uma palavra!
Quero uma bem composta,
com tempero diferente,
que não seja preta e branco
e que traga algum sentido.

Pode ser algo simples,
uma composição básica,
mas que seja marcante.
Não quero esquecer o gosto por algum tempo
e quero dormir lembrando!

Traga me um daqueles baldes,
bem carregados de letras,
talvez o maior,
para que caiba no meu peito a E,
e que forme com minha X
um I que tenha fome de S
mas que carregue aquele gosto de T
que traz uma mEmória,
quereNdo me Contar
algo com gosto de Infância
e que leve a A à tolerância.

No seu cardápio tem um balde de verdade
com cheiro de essência?
Exclua-o!
Hoje eu quero o balde que você não vende,
dúvidas compostas e quase impensáveis,
junto com perguntas doces e amargas,
temperadas com gotas de limão caipira,
aquele que tem gosto de proximidade.

E mesmo que depois eu seja rei numa história privada,
deixe-me ver os segredos da sua mesa torta.
Hoje eu resolvi trocar o gosto,
e preciso de outros já,
antes que eu escolha mudar de bar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ondulações

Ouço o balanço das ondas
E fico esperando para ver as sinuosas marcas que elas fazem na areia,
A pressa para vê-las é tanta que nem percebo que atravessei a praia olhando fixamente para as curvas que se formavam no horizonte.

"Estou a espera da onda marcada sobre a areia."
Essa é a frase que me vem a cabeça quando penso em porque estar aqui.

Achei esse lugar muito deserto e resolvi enchê-lo de gente enquanto espera as formas das ondas.
Ajoelhei-me e começei a desenhar pegadas na areia;
Nada melhor que encher um lugar com pessoas.

De repente, senti que a onda esperada estava chegando,
preparei-me calorosamente para recebê-la e senti sua fresca água tocar meus pés,
fechei os olhos,
senti o mundo,
e quando os abri, notei que as pegadas que eu havia desenhado não estavam mais ali.

Meus olhos se encheram,
quis gritar,
mas olhei para trás,
e notei que havia um rastro de pegadas que traziam até a mim.
Fechei meus olhos,
presenciei a minha existência.

Peguei minha mão e entrei na água,
fria e agitada,
Não pensei em mais nada
só fechei os olhos na esperança de sentir as bolhas que se formavam pelo movimento da água subirem o meu corpo.

Esperei, esperei
senti frio,
sai da água.

Olhei o sol tocando minhas pegadas,
corri novamente e pulei,
sem esperança nenhuma me joguei,
de olhos bem fechados.

Achei ter sonhado
que bolhas me carregavam mar a dentro,
e só então acordei
acompanhado das sombras que as ondas deixavam
na areia que sustentava meu corpo,
com a água que recostava meu ser,
as bolhas que se fixavam em mim quando com a água
e aquelas pegadas, minhas,
mas ainda existentes na areia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Insano

Dura e cortante,
assim é a gélida lâmina da navalha que se passa pela pele.
Uma pele fina, ultra sensível,
totalmente vermelha e frágil.

Ó quão cruel são os olhos que te cortam, coração,
Esperava eu que pontas afiadas os encontrassem.

Mas quão triste seria a vida sem eles,
sem uma sucumbida cor.
Viveria então apenas com a imagem do cheiro ou do gosto
daquilo que um dia foi retrato visto vivo.

A, se pudesse eu,
ter escolhido entre o sim e o não,
sabendo que a vida pela frente me aguardava
com as mãos cortadas.
Não teria eu escolhido passar vontade
De ter você pra mim,
de falar de mim à você,
de fazer joguinho com minhas palavras
e te cortar a armadura com meus olhos.

Antes fosse simples
encostar na lata que vesti
sem me lembrar da dura lâmina
que me enfiava a pele fina vermelha,
e cortava,
dor insana e vívida,
sangrava.

Assim era
o coração misto de ti e mim
num insalubre não saber daquilo que escondia
dos meus olhos,
que com minha própria lâmina
insanamente arranquei.