quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Viagem 22

...
Hoje o dia começou agitado, peguei minhas malas e fui ao encontro do meu veículo. Não tinha rumo, apenas disse: "leve-me para onde seu farol brilhar", e então comecei a flutuar. Fiquei desesperado, com medo de me desencontrar no escuro do universo, tentando fugir da dor e da tristeza, que me tornavam mais homem, mas que agora ficaram para trás. Adormeci sentindo falta delas, e acordei em um terreno estranho. Não haviam pessoas, nem casas, nem contos nem fadas, existia apenas o nada.
Um espaço oco, vazio, sem buraco, nem montanha, sem luz e sem escuridão. Um lugar diferente, sem riso, nem choro, assim como me dizia a sensação. Eu fiquei pasmo, sem saber o que fazer, perdendo o sentido do mundo, o rumo do meu mundo.
Apertei os olhos com força, muita força, até sintí-los doer, e então resolvi abrí-los. Não podia ser real, resolvi me beliscar e então me fiz roxos, mas não adiantava, eu estava acordado mesmo. Não haviam árvores, mares, casas, carros, tudo, nada existia naquele lugar. Tentei correr, mas não tinha como, não haviam caminhos para me levar de volta ao meu carro, ou trazê-lo até a mim, pois quem correu foi ele, eu apenas mantive-me no mesmo local, estático, tentando me reanimar, como faz o socorrista de uma ambulância frente a um acidente.
Eu apertei minhas calças, e corri em direção a lugar nenhum. Trombei em algo que não via e cai sentado pelo impacto, o chão era passível de toque, mas não tinha cor, ele não era transparente, mas também não era furta cor.
"Eu não sei porque vim parar aqui, pedi para onde seus faróis brilhavam, e você me dá isso? Um lugar sem beira nem eira, nem morto nem vivo, sem tudo nem nada, um lugar... quer dizer, alguma coisa, pois isso não me parece um lugar! Eu estou desapontado, totalmente chateado... móvel-autoinútil." E não deixei que meus olhos ficassem molhados. Meu coração se fechou e ficou como o local, inundado de rancor, tomado de horror, indesenhável. Levantei, limpei-me do falso pó (como se precisasse) e passei a mão para levantar o cabelo.
Escondi meus olhos de mim e senti que algo me puxava para um outro lugar. O vento me desmontou, me senti vazio, sem dúvidas, talvez até sem vida, e por fim, sem nada.
O olhos que nada viam, agora não mais existiam, me fiz perceber que estava então, eu, dentro de mim, dentro do assombroso lugar no qual eu mesmo tentei me colocar, na vida que eu tentei construir. Pensei fundo, respirei alto, e senti uma luz me queimando...
Meu veículo estava vindo, com muita velocidade, prestes a me socorrer e me levar para longe daqui...

calma, é melhor mudar a ultima frase...

Meu veículo estava vindo, com muita velocidade, prestes a me deter e me levar para longe de mim.

Não sei se ainda há tempo, mas acho que minha viagem acabou por aqui.

Só me lembro que acordei na minha cama, frio, sem ar e assustado, o rumo eu já tinha perdido, só restava lembrar, onde eu queria encontrá-lo.

Um comentário:

  1. sábais palavras!!! não sei porque, mas vejo nestas frases os rabiscos de um grande escritor!

    PEDRO.

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